Mulheres de Chico

Já mencionei que adoro o jornalista Xico Sá e li há pouco tempo mais um excelente texto que fala sobre um outro amor, também já dito aqui – Chico Buarque de Holanda.

Xico Sá com toda sua sabedoria e sutileza escreveu “ …esse ódio todo ao Chico é sintoma de que o país perdeu de vez o rumo das ventas e a ideia de delicadeza. O Brasil precisa voltar a amar Chico Buarque de Holanda. De todas as maneiras. Com tesão e com afeto…”

Sou daquelas que gostaria de ter vivido nos anos 60 para assistir aos festivais de MPB e ter vibrado com A Banda e Roda Viva. Teria ficado desolada quando Chico foi ameaçado pelo regime militar que o obrigou ao autoexílio. Porém, ele não se intimidava e suas canções mesmo sendo acusadas de alusão negativa ao governo e denuncias sociais, econômicas ou culturais. E mesmo passado pelo crivo da ditadura, com alteração de versos, foram lançadas – Apesar de Você, Cálice, Construção, Partido Alto, Meu Caro Amigo… São tantas obras.

Já tive a oportunidade de encontrá-lo cara a cara em pleno meio de semana na praia do Leblon. Belo par de olhos claros, charmoso. Eu seria sua amante fácil-fácil. Ele é um poeta.

E em pleno 2017, depois de tantas obras literárias, canções românticas e outras politizadas, Chico, sem reclamar de calos nas pontas dos dedos pelas inúmeras relíquias escritas, nos deu a graça de mais uma música – Tua Cantiga 

Meu caro amigo, me perdoe por favor. Infelizmente vivemos tempos sombrios e as pessoas não entendem ou não querem entender uma licença poética.

Sei que sou fascinada por suas letras e versos, mas Tua Cantiga pode ser rotulada como antiga e delicada, mas nunca uma letra machista.

Me sinto envergonhada, e no Tribunal do Facebook sua música foi criticada porque fala de adultério ( devo ter perdido alguma coisa, né? porque esse tema é um dos mais tocados nas paradas de sucesso).

Confundiram seu nome com uma ideologia a ser seguida e por isso disseram “ Chico Buarque não me representa.” As feministas acharam a letra cafona, ultrapassada e tripudiaram dizendo que os versos dão ideia de uma família abandonada.

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Bloco Mulheres de Chico

Mais uma vez, você teve que se pronunciar e explicar aos ignorantes o significado de machismo “ Será que é machismo um homem largar a família para ficar com a amante? Pelo contrário. Machismo é ficar com a família e a amante”.

Ohhh céus !!! Imaginem só, nesta altura do campeonato, todas as suas músicas serem apagadas porque não falam sobre as mulheres empoderadas de hoje?!

Seu lançamento é nada mais que uma cantiga que fala de um amor proibido e que nunca desiste e com uma pitada sacana típica de Nelson Rodrigues.

Como escreveu seu xará “… que Francisco volte a ser aos olhos de nós todos, mesmo nos tempos pós-golpe parlamentar, o grande Chico…”

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“ChXicos”

Em tempos de diarreia cultural percebo que o meu amor pela suas obras só fortalece. E me despeço com um trecho do meu outro amor para as feministas de plantão “ …inclusive com o perdão por te trair, me perdoa, desapontada leitora, mas tem que ser assim…”

 

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Alô Criançada, o Bozo Chegou

Uma das coisas que mais me inspira é cinema. E sou daquelas que prestigia o cinema brasileiro. Com isso, aqui estou super ansiosa para assistir Bingo – O rei das Manhãs – cinebiografia da história do palhaço Bozo, que é interpretado pelo ator Vladimir Brichta.

Vi o trailer, li matérias em diversos meios de comunicação – impressa e digital e isso tudo me gerou uma grande curiosidade sobre a vida de um clássico infantil dos anos 80 – Augusto, o verdadeiro palhaço Bozo.

Aparentemente inocente com um palhaço central comandando um programa de auditório para crianças, com brincadeiras, sorteios, leitura de cartas enviadas por telespectadores infantis, cantava músicas e contracenava com outros personagens do programa ( Papai Papudo, Vovó Mafalda e Salci Fufu). Eram exibidos desenhos animados.

Ai, você se dá conta que um dos mais carismático interpretes do palhaço, que diariamente divertia centenas de criança e alcançou a fama jamais sendo reconhecido pelas pessoas sem estar fantasiado. Tamanha frustração, que quase o levou a destruída sua vida pelo uso de drogas até mesmo nos bastidores do programa.

Imagine o quanto é difícil essa obrigação de ser engraçado o tempo todo?Unknown

Essa necessidade de demonstração diária que está tudo 100%. Você se torna quase um sinônimo de felicidade.

Já parou para pensar que a vida é séria, tem obstáculos e a parte do humor é só um pedaço da vida real?

Sem dúvida nenhuma, o Augusto também se divertiu interpretando Bozo e amou arrancar risadas das crianças, mas ninguém nunca pensou que havia um alguém por trás daquela máscara, um anônimo, aflito, com um peso na sua vida.

Quantos Bozos passam por nossas vidas? Ou até mesmo a gente faz esse papel. Confundimos simpatia e ser educado com estado de felicidade profunda e graça.

A perseguição da felicidade é isso: sorrir nas redes sociais ( novo picadeiro). “ Don’t worry, be happy “. Já publiquei alguns textos sobre “ levantar a poeira e dar volta por cima”, não sou nenhuma carrancuda.

Meu questionamento é: será que estamos de fato olhando para a pessoa atrás de uma máscara? Que senta ao seu lado todos os dias no trabalho…ou a gente mesmo sentado em um bar, em casa?

Que coisa mais perversa, né? Sem a tal felicidade estampada, você está fazendo algo de muito errado. Sentimentos como melancolia ou tristeza também são genuínos. E felicidade não é estática, seus sonhos, desejos, metas vivem em constante mudança.

Toda angustia oculta é resultado deste objetivo de vida: demonstração excessiva de felicidade e não viver essa felicidade. Contemplar uma paisagem em silêncio, degustar um delicioso prato, ler um bom livro, ir ao cinema, ou seja a “ paz interior”, o famoso estado de espírito e até mesmo superar frustrações provocam ótimas gargalhadas. Mesmo que internas.

O Bozo, encontrou a sua felicidade e gargalhada se convertendo à Igreja e ajudando o próximo. E com isso comprovou que ser feliz é muito simples e bem mais fácil se não for obrigatório.

Obs: Assisti ontem o filme. O texto já estava pronto, com isso, não quis mudar nenhuma virgula para a postagem. Recomendo. 

” Teresinhaaaaaa”

Eu confesso, sou chegada a um exagero. Falo demais, amo demais, choro demais. Enfim, adoro uma intensidade, me entrego de corpo e alma, gosto de brilhos nos olhos, sentir borboletas na barriga. Canto sem ritmo, danço sozinha. Tudo é motivo para potencializar as coisas e/ou os acontecimentos.

A música de Cazuza Exagerado me representa – “…. Até nas coisas mais banais. Pra mim é tudo ou nunca mais…” Tenho verdadeira obsessão para colocar tanta coisa em um simples look. Maquiagem nem se fala…Adoro um colar chamativo, brincos grandes. Tudo bem combinado para não virar brega.

Me identifico com o velho guerreiro – Chacrinha. Aquele universo alegre e cheio de cor, cheio de humor. E por falar nele, agora em setembro Abelardo Barbosa completaria 100 anos. Como eu gostava de passar as tardes de domingo assistindo o Cassino do Chacrinha. Vibrava com o programa de calouros, os jurados, chacretes, suas vestimentas espalhafatosas, aquela buzina para desclassificar o candidato. E os bordões? “ Vocês querem bacalhau?” e “ Quem não se comunica, se trumbica!”

O cara fazia um marketing pessoal brilhante. Construiu uma marca pessoal que o diferenciava de outros profissionais: “ Eu realizo, logo eu sou”. Tinha a maior satisfação em impressionar os outros com o seu empenho.

Fonte de inspiração até hoje e como ele mesmo dizia: “ Na televisão nada se cria, tudo se copia.” No seu programa as dançarinas de palco animavam com suas coreografias para acompanhar as músicas, e todas foram devidamente apelidadas – Rita Cadillac é a mais famosa.

Com um time de jurados dedochados e caricatos – Aracy de Almeida, Rogéria, Carlos Imperial, Pedro de Lara e Elke Maravilha e os inúmeros artistas que se lançaram, o Velho Guerreiro marcou gerações com a sua irreverência e exagero.

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Elke Maravilha e seu “painho” – apelido carinhoso que ela deu ao Velho Guerreiro 

“ Alô, atenção!” Sim, sou motivada pelo desejo e sem medo das consequências, mesmo que isso não leve a um desempenho satisfatório. Para compor o MEU figurino sempre busco referências alegres e estou longe de ser uma perfeccionistas que luta por pensamentos preto e branco e só mergulha de cabeça se for bem- sucedido.

Eu vivo nos extremos, com mais resiliência do que outros, conectada com pessoas, me expondo e de uma certa forma mostrando vulnerabilidade. Como uma exagerada de carteirinha, choro/sofro por qualquer crítica por menor que seja. Mas autenticidade é tudo para um exagerado e pode ser praticada logo em seguida ao chororô e se tornar um grande sorriso.

Teatral, cômica, dramática, pago mico, ando com acessórios extravagantes e sem nenhum complexo e tentando ao máximo ser positiva. Agradeço ao famoso e belíssimo comunicador do rádio e da TV brasileira pelos seus exageros – jogando farinha, feijão ou bacalhau para platéia, ele influenciou a minha vida.

O último programa foi ao ar em 2 de julho de 1988.